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"A velhofobia se escancarou e saiu do armário", diz antropóloga Mirian Goldenberg

Por RONALDO em 02/10/2021 às 04:41:59

Pesquisadora e professora na pós-graduação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Mirian, autora de 30 livros, entre eles “A Invenção de uma Bela Velhice”, defende a ampliação do tempo de escuta aos mais velhos como maneira de tentar tirá-los da invisibilidade e dar atenção a suas vontades.

Ela também falou a respeito de sexualidade na velhice, sobre o impacto da pandemia entre os idosos e sobre o que considera envelhecer bem nos tempos atuais.

PERGUNTA – Como a pandemia impactou o plano de muitas pessoas mais velhas de viver com urgência "o tempo que resta"?

MIRIAN GOLDENBERG – Para pessoas que estavam envelhecendo com autonomia e mobilidade, foi uma morte simbólica, elas perderam algo muito precioso. São pessoas com urgência de viver bem o tempo presente.

No entanto, há uma incrível capacidade delas de ter coragem de dizer "é o que eu tenho e tenho de aproveitar isso". Elas já falam de ir ao supermercado, de visitas como algo do passado. Fazem exercício dentro de casa, apanham sol pela janela, criaram novas maneiras de aproveitar os dias com músicas, leituras, cantos, jogos. Levam muito a sério o aproveitar o tempo com aprendizado, com propósito, com risadas.

É um momento de sofrimento, mas os velhos ensinam a ter coragem de aproveitar os dias com significado, com alegria. A pandemia roubou o tempo deles, é uma prisão, mas a vontade de viver é tão grande que eles encontraram novas formas de manifestação. Eles têm amor e criaram novas maneiras de conexão. Não tem abraço, mas existem boas conversas por telefone, por exemplo.

P. – Você exalta pessoas que não se identificam com uma idade específica e cita Gilberto Gil, Caetano, Fernanda Montenegro. Isso não é negar uma condição natural de vida?

MG – Enxergo nessas pessoas o que enxergo no grupo que acompanho, formado por gente comum: elas não se aposentam da vida, não mudam porque envelheceram, não deixam de ter tesão no que fazem, não deixam de ser elas mesmas. É uma escolha não deixar de ser a criança que você foi um dia, só que com autonomia e plenitude.

Existe o potencial de sermos nós mesmos em todas as fases da vida. Muita gente não alcança isso por problemas sociais, de saúde, por medo, por questões financeiras e por causa da família, mas acredito que sempre seja possível nos libertar dessas prisões internas e externas. Creio ser possível nos adaptar melhor às circunstâncias que nos cercam para sermos melhores hoje. O que hoje se pode fazer para alcançar o seu máximo?

P. – Há hoje quem se incomode com o uso do termo "velho" para pessoas. O que pensa disso?

MG – Pesquiso essa questão há 20 anos. Fiz uma opção, desde que comecei, de usar a palavra velho, embora houvesse idoso, terceira idade, coroas, melhor idade. Eles usam o termo velho. Ninguém fala "é uma merda ser idoso". Não sou contra outros usos, mas respeito o jeito como eles falam de si mesmos e se definem.

Velho é uma palavra carregada de estigmas, de preconceitos, de doenças, de inutilidade, de algo descartável. Entendo isso, mas prefiro usar velho porque acho que dá para mudar essa visão horrorosa que existe sobre a velhice. Não quero me opor a ninguém, mas acho que assumir essa postura é uma maneira de mudar algo, de transformar uma realidade.

P. – A diversidade está na moda. A questão etária tem sido bem contemplada?

MG – Há dois lados nisso. O tema era menosprezado, mas, durante a pandemia, bombou e há muita gente que virou militante pela causa dos velhos. Até mesmo pessoas que pareciam ter medo de envelhecer se assumiram: "Sou velha, mesmo", o que é muito bom. Muitos programas de inserção do velho no trabalho, em atividades culturais e sociais também estão acontecendo. É um fato.

Mas o que destaco mesmo por esses tempos é o aumento da velhofobia, a velhofobia escancarada, saindo do armário. O que antes era invisível, escondido e dava vergonha nas pessoas, agora é assumido. No início da pandemia, políticos, empresários e autoridades diziam abertamente que velho tinha de morrer mesmo. Recentemente também ouvimos falar que "só morreu quem deveria".

A velhofobia está se legitimando como discurso, se alastrando pela internet com memes que dizem que velho é teimoso, que velho atrapalha. E isso não é coisa só de jovens, tem pessoas com mais de 60 anos fazendo.

A velhofobia está sendo legitimada e o velhofóbico parece que está sendo mais forte neste momento que a afirmação da velhice. Não penso que seja algo mundial, embora eu veja em outros lugares também, mas, no Brasil, esses discursos, comportamentos e valores velhofóbicos estão no poder.

P. – Então, não tem o que comemorar no Dia Nacional do Idoso?

MG – Temos de lançar uma campanha: "Escute o seu velho", que seja meia hora por dia. Ligue, escute o que ele tem a falar. É o que eles mais precisam, ter com quem falar, sair da invisibilidade, ter atenção de alguém e não ficar recebendo ordens como se fossem incapazes. É escutando que vamos saber o que eles precisam, querem e sentem prazer na vida.

P. – Ter uma bela velhice, termo cunhado por você, não pode ser apenas um descanso, uma contemplação? Precisa ser super, ser ativo?

MG – Não. Pessoas que não fazem coisas incríveis, que têm vidas normais, podem ter belas velhices porque amam viver, porque querem viver.

Fiz uma pesquisa perguntando se as pessoas gostariam de viver mil anos. A maioria das pessoas entre 40 e 60 anos responderam que não, que chegar até os cem já estaria muito bom. Todos os velhos que acompanho, perto dos cem anos, com as mais diversas condições, falaram que gostariam de viver mil anos. É isso a bela velhice. É ter tesão pela vida. Não é ser uma celebridade. É chegar aos 70, 80, 90, 100 anos amando e valorizando o que tem. Isso pode envolver até mesmo o prazer de cuidar dos outros, dos filhos, dos netos, dos amigos, ser útil, produtivo.

P. – A sexualidade na velhice parece estar em transformação. Tem a ver com empoderamento feminino? Para ser um velho feliz, tem de ter uma vida sexual ativa também?

MG – A sexualidade feminina é um tabu, e a sexualidade da mulher e do homem velho é um tabu maior ainda. Pelas minhas pesquisas, digo que não é possível falar em uma sexualidade específica na velhice, pois há várias realidades, muitos tipos diferentes de tesões, inclusive de quem não quer mais fazer sexo, não tem mais prazer com isso e quer outras coisas. Isso tem deixado de ser motivo de vergonha.

As pessoas têm enfrentado mais essa hipervalorização que a cultura faz do sexo como algo ligado à saúde, à felicidade. Não trepar também pode ser saudável, e é assim para todo o mundo. Mas é legítimo também quem segue gostando, fazendo com frequência, usando vibrador. Não dá para ser radical para nenhum lado. Cada um sabe e decide sua forma de envelhecer, enfrentando suas pressões internas e externas.

P. – Estamos longe de dissociar velhice da solidão, da doença, do abandono?

MG – Quem vai cuidar de você na velhice é um tema muito importante, uma angústia num país como o nosso sem um sistema de cuidados adequado. Há quem pense até hoje que os filhos irão fazer isso, mas 51% da violência contra o velho é praticada dentro de casa, pelos filhos. O abuso financeiro, o abandono e a negligência contra o velho também estão dentro de casa.

Muita gente acha que vai conseguir cuidar de si na velhice, razão de muito orgulho para quem já faz isso. Mas as experiências de maior sucesso que conheço são aquelas de quem construiu uma rede de afeto, de amor com familiares e também com grandes amigos, que se cuidam e se protegem. Mas não dá para formar isso só quando você estiver velho.

RAIO X

Mirian Goldenberg, 64

Doutora em antropologia social pela UFRJ

Autora de 30 livros, entre eles “Coroas”, “Corpo, envelhecimento e felicidade” e Por que homens e mulheres traem

É colunista da Folha desde 2010

Fonte: Banda B

Tags:   Geral
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